quarta-feira, 7 de setembro de 2016

A Crítica da Identidade



 acréscimo a este blog : comunico o lançamento do meu novo livro "Riqueza e Poder, a geoegologia", pela Quártica editora, em 2018, com uma palestra minha na internet que pode ser acessada pelo título do livro,  porém até agora a editora não o colocou nas páginas do site nem nos canais de venda da internet onde constam meus livros antes publicados: "O pós-moderno, poder, linguagem e história"; "Filosofia, Ceticismo, Religião, com um estudo sobre Diógenes Laércio", "contos do espelho" e "contos da musa irada";  ///                                                ///                                          em abril 2019

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                informação ao público, que a mídia não veiculou: o governo do estado autorizou sindicato ilegal desconhecido da classe cobrar mensalidade dos professores públicos, a 150,00 reais. a folha de pagamento veio do palácio da guanabara com dois descontos, do ilegal, que para achincalhe da população se designa "os sociólogos", e do sindicato legal. 

   acréscimo em 2019 =  os professores foram orientados a cadastrarem solicitando a devolução do desconto ilegal, mas até agora não ocorreu; 
       



   


            A metodologia funcional no Brasil

                                   Eliane de Marcelo
 

            = Alter-egologia do Funcionalismo

         Se designamos "Geo-ego-logia' a modernidade, em termos da fabricação da autoimagem unitária do Ocidente como 

Sujeito da história, a Alter-ego-logia vem a ser o correlato nessa margem anexada como a alteridade frente a qual o Sujeito se identifica. A cultura se torna paradoxalmente, não o que o Ocidente pesquisa em termos da alteridade, assim como o que meramente se faz,  mas a importação da receita do desenvolvimento que instruirá a relação com o próprio Ocidente, o agente pesquisador-civilizador por um lado, econômico-imperialista por outro lado. Vimos que o positivismo correspondeu a uma política racial bem definível como um racismo tecnocrático que esbarrou somente no obstáculo do próprio imperialismo como agente da contra-industrialização para efeitos de monopolização do mercado importador. 

              A alter-ego-logia do funcionalismo, estando relacionada às vanguardas modernistas, deveria ser uma revolução histórica. A cultura já não seria secularmente definida como irradiação do progresso científico-industrial. Mas sim como o correlato da sociedade, com o primitivismo sendo o corolário, e, assim, ao invés de importar estaríamos agora exportando. Porém, mesmo que esse fenômeno já esteja comprovado como na demonstração de Otavio Paz sobre que na Espanha o modernismo penetrou vindo da América Latina, após a nossa pioneira geração "modernista" que produziu teorias tão originais quanto a de Oswald de Andrade, houve uma acomodação, tornando a se verificar a mera adaptação da "receita" assimilada.

     Pode-se questionar, em nível de possibilidade. Se houve um retrocesso, como teria sido possível? Na verdade o gênio do modernismo brasileiro contou com os recursos intelectivos da extrapolação a partir do pouco que hauria da inovação europeia da pesquisa in loco em pleno neocolonialismo, não com informação em primeira mão a partir da pesquisa local por profissionais da nação.

            Não houve antropologia social brasileira nesse sentido, e a que começou a se fazer bem depois, com os irmãos Villasboas, Roberto Cardoso de Oliveira e outros referenciais conhecidos, brilhou como um fenômeno de vocação beirando a caridade, não havendo até agora política de Estado que refletisse a concepção da nacionalidade não condicionada a mero "efeito de demonstração"  de modas e produtos importados protagonizado por uma casta identitária, e sim como status heterogêneo das culturas historicamente formativas do território.

       Oswald utilizou-se, pois, de Malinowski e Briffault, sem muito discernimento da ruptura relativamente a Morgan e Engels, que entretanto limitava aqui o entendimento de um marxismo que evitava desse modo culturalizar-se. O modo como Oswald amalgamou o díspar está relacionado ao terceiro vetor de sua informação, a antiga literatura dos viajantes assim como a exegese da temática antropológica que ele pudesse fazer do processo literário local desde a colônia.

           Sua conhecida releitura dos utopistas europeus entre o Renascimento e Marx, assinala a inversão que seu gênio lhe permitiu realizar, mostrando como, ao invés de um progresso autônomo,  a cultura europeia se modernizou a partir da assimilação da informação das Américas. Assimilação lenta e relutante, limitada pelo recalque da sexualidade e pelo machismo oriundos da metafísica, até a eclosão das vanguardas e a ciência do inconsciente.  

            O percurso dessa modernização em Oswald não é linear. Ele contradisse por esse motivo, toda a dinâmica do capitalismo histórico definida a partir da conexão weberiana da racionalidade empresarial. Se houvesse revolução possível, ao ver de Oswald ela devia inversamente, como se verificava pelas vanguardas, vir da revelação do inconsciente primitivo. Mas para Oswald ele não era abruptamente seccionado do desenvolvimento. Este era processo em se fazendo na decisão do presente entre o bem estar social ou a dominação total. A revolução comunista havia esbarrado no obstáculo da falsa imagem da razão.  A decisão do presente devia, ao invés, partir desse outro começo para compreender qual o seu adequado objetivo. Não a subsunção à técnica, mas a síntese do homem natural tecnizado.

           Tornava-se a falar a linguagem de Locke, porém num contexto culturalista e de certo modo pós-romântico. Assim Oswald considerava nossa formação católica um trunfo contra o calvinismo, este substrato de um capitalismo que era mero uso da técnica a serviço da repressão sexual, a canalização da sexualidade para manter a hierarquia instalada como distorção na produção - nesse sentido, Oswald tem sem dúvida relação com Althusser. Porém não nesse outro pelo qual a linha althusseriana é a da objetividade ocidentalizante em progresso, desde Lacan.

            Conforme Oswald, o catolicismo feminilizado atuou como o matriarcado poliândrico primitivo perpetuado na adoração da mãe de Deus, convergência subliminar da colonização com o inconsciente primitivo, instituindo a linhagem da qual poderia evoluir um capitalismo verdadeiramente liberal à Bunyam ("A revolução dos gerentes"). Do outro lado da qual prosseguia a trajetória da colonização como apenas dominação genocida.

            Na poliandria, instituição corrente em tribos brasileiras e polinésias, pela qual uma mulher deve ter vários maridos, mais que no canibalismo, Oswald ancorou sua concepção de inconsciente primitivo, em que a condição freudiana da unidade não se verificaria, porém não como apenas incompletude formativa, e sim como sistema alternativo. O inconsciente primitivo é político, ele pensa a heterogeneidade, a pluralidade do social.

            Oswald persistiu por isso no uso do esquema de Morgan, contra o androcentrismo universal de Lévi-Strauss, mas ele o compreendera não como a obrigação da passagem pelo despotismo com vistas à organização consciente, e sim apenas como a prova da indiscernibilidade da monogamia com o princípio capitalista do monopólio da propriedade por meio de violência. Oswald faz, pois, a crítica do monopólio, não critica a livre empresa.Afonso Arinos desenvolveu uma leitura histórica paralela de Oswald, interpretando a revolução francesa como efeito do conhecimento do índio americano pela Europa.

        Esse desenvolvimento,  porém, foi anulado na consolidação da teoria social funcionalista, cujo apogeu coincide com a emergência da segunda geração do modernismo, redesignado "regionalismo". 

           Gilberto Freyre e "Raízes do Brasil" de  Buarque de Holanda são os produtos mais notáveis. Aí ocorre a inversão do nacionalismo de Oswald. O primitivo de Freyre está concentrado na aportação do negro escravo. A valorização não ocorre como real ultrapassamento do preconceito positivista do negro fisicamente forte mas infantil, não intelectualmente inteligente.  Agora porém a infantilidade sendo também inocência, pureza, incapacidade para dominar além da mera circunstância do momento. Logo, contudo, a pureza se transforma na sensualidade exacerbada, o sem freio dos instintos. O tema de Freyre é a negra escrava que serve de objeto sexual ao senhor.  Assim o negro inverte o protótipo da poliandria primitiva para o homem que tem muitas mulheres. O negro, portanto, desse "negrismo", é apenas fetiche, não pessoa humana. O assunto é conduzido por Freyre em estrita conexão com o da rivalidade do teórico à senhora branca.  

          O fetiche é utilizado como símbolo de um duplo domínio do homem sobre o objeto: o desfrute da escrava passiva e o escárnio da obrigação com a mulher branca, respeito civil que a esta converte num ser pensável. Como política, essa espécie de teoria que é apenas sintoma de tara machista, se dirige ao negro ensinando-lhe que ele é bom para o senhor branco, que na história ele atuou ao lado do senhor e que sua redenção social passa pela conformidade a esse papel. Se o negro vier a obter posição, é pelo desempenho desse papel que não é o da inteligência, mas o da conveniência instintiva, não por uma mudança de mentalidade real.

           É deplorável que hoje em dia, esse funcionalismo já bastante superado e criticado, recusado pelos próprios movimentos de negritude como nos USA, esteja reeditado nas universidades assim como a obra de Freyre, por corruptos instruindo a mídia que explora a imbecilização, para manipular currais eleitorais contra os direitos já estabelecidos da cidadania.  

          Se Freyre  pretendeu escandalizar ou não, é comprovável que o machismo do homem médio brasileiro da época encontrou aí um canal, como se nota por outros registros - na poesia da "nega fulô", etc.

         Buarque de Holanda é o protótipo da perspectiva subjacente a esse funcionalismo. O que está sendo valorizado é o calvinismo que desde inícios do século XIX, comprovada a hegemonia capitalista dos países reformados, invertera a hierarquia rousseauísta e instituíra o Norte como bússola também do progresso dos povos. O português,  o latino, prova parentesco de temperamento com o primitivo, sim, no Raízes do Brasil,  mas por esse viés de sua preguiça, de sua incapacidade para a diligência. Absurdo histórico, se lembrarmos que o Império só se estabeleceu subsequentemente à independência por subvenção inglesa, não havendo qualquer diferença real em termos de mentalidade colonizadora - lembrando também os fatos da Secessão na América do Norte, de modo que a plantation não foi apenas característica da exploração portuguesa.  

          Para Buarque de Holanda trata-se porém apenas de culpar o português como "raça" preguiçosa, pelo atraso do país que colonizou, instituindo a mentalidade da emoção ao invés da razão. A meu ver essa posição de Buarque de Holanda é distorção total da complexidade do processo histórico brasileiro, e abstrai a vocação do trabalho que é tão constante no português emigrado, independente de costumes comuns às nobrezas de qualquer país.

            Além disso, é importante observar que a propaganda que alguns fazem do período da invasão holandesa  algum tipo de melhor regime colonial que o português, está contraditada pelo excelente estudo de Mario Neme ("Fórmulas políticas do Brasil holandês", São Paulo, Usp, 1971)). Conforme Neme, "a história do Brasil Holandês está recheada de violências físicas e perseguição contra ministros e moradores não-calvinistas por motivo de religião; o governo de Nassau foi, de um lado, omisso na repressão dessas violências, e, de outro, conivente com as perseguições" (texto da contracapa). Especialmente  a propaganda dos holandeses como tolerantes com os judeus está desmentida por Neme, que mostra o anti-semitismo radical no curto período dos holandeses no Brasil. 

           É espantoso como o investimento de gangs na mídia em fanatismos religiosos e ideologia populista autoritária na universidade, a qual é contrária a produção letrada do brasileiro honesto,  tem produzido os efeitos que Neme registra.

            O reducionismo funcionalista - que chapa numa característica única algo estereotipado como identidade nacional -   já foi criticados suficientemente  por sociólogos. Porém na circunscrição local, exercia-se a contrario do conhecido mecanismo de estereotipar para o melhor a nossa e para o pior a outra nacionalidade. Como alter-egologia, servia para recalcar a produção teórica original nossa, limitando a oferta à cópia do que instituíam os capazes, os inteligentes europeus, representados pela reprodução local feita pelo alter-ego do centro, o acadêmico subvencionado pela política identitária dos governos. 

             Essa utilização alter-egológica num contexto primitivista  é algo bastante paradoxal como se pode intuir, porém não menos inefetivo em termos de instituição acadêmica. dada a constância formal da nossa alter-egologia zoilista - lembrando que Zoilos são chamados desde Aristóteles os críticos que visam apenas destruir - não há nisso o que requeira ainda indagação dos mecanismos, não obstante o inquérito dos resultados ser sempre mais necessário como documento da dominação cultural que revelaria a verdadeira produção, a das vítimas silenciadas, e hoje em dia tais resultados chegarem a ser  muito mais assustadores devido a fraude computacional que se designa personal computer, intrusados como são por bandidos quaisquer que mexem nos controles por malware de monitoramento clandestino, independente do que os usuários pagaram pela propriedade do aparelho e do que eles necessitam enquanto cidadãos que são obrigados a declararem impostos, etc., por via de 'personal computer". Os dispositivos avessos a inteligência e escrita proliferam nos programas de multinacionais imperialistas que tem hoje a função que antes era da ditadura, de reprimir a consciência em âmbito nacional. 

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